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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Arqueologia das profissões e ofícios


O plantar do cebolo
Por esta altura, o cebolo já está bem "pegado", por isso recordo este trabalho do campo, posterior à sementeira da batata. Se o terreno for lavrado previamente, o que não é muito comum devido à área utilizada para esta cultura, o trabalho fica simplificado. Caso contrário, é necessário escavar a terra para abrir cada um dos regos. Bate-se o novo rego com a enxada voltada com a lâmina para cima, rapam-se as ervas, coloca-se o estrume, dispõem-se os pés de cebolo com uma distância de cinco dedos sensivelmente. Repete-se esta sequência até o cebolo acabar. De seis em seis regos, um pouco mais ou menos, deixa-se um rego vago, um pouco mais largo, para se poder regar e fazer outros trabalhos, sem danificar a plantação.
Quando o cebolo já está mais crescido, é costume arrancar-se alguns pés, os mais fracos, para que as restantes cebolas venham a ser mais fortes. Estes pés, depois de limpos e lavados, levavam um corte em cruz, e eram temperados numa malga com azeite, vinagre e sal. Uma delícia, acompanhada com broa!
É um sabor que nos fica e que não se compara em nada com as cebolas dos "hiper e Cª".
Texto e Foto de João Costa /Na Foto: Maria J. Pinto /Local: Memorial /Ano: 2003

segunda-feira, 29 de março de 2010

Arqueologia das profissões e ofícios VI

Os telheiros
Os telheiros eram pequenas estruturas de abrigo ao árduo trabalho dos pedreiros. Inicialmente surgiam disseminadas pela freguesia, preferencialmente junto de estradas e caminhos, de forma a facilitar a descarga da matéria prima e o carregamento do produto final a ser exportado.
Habitualmente, os trabalhadores não se deslocavam para almoçar em casa, devido à distância e ao tempo que dispunham para o almoço. Por isso era comum assistir à peregrinação de mulheres e crianças para " levar o comer " aos familiares.
As cestas que aconchegavam os recipientes com a refeição, encolvida em panos. Também lá ia a garrafita do vinho.
(Digitalização de Fernando Costa)
1971. Ao fundo, exemplo de um telheiro tradicional, com uma armação em toros de eucalipto e cobertura em chapas de zinco e ramos de árvores.
( Digitalização de Fernando Costa )
2005. Telheiro mais recente com estrutura em ferro e telhado e proteções laterais em chapa de zinco. Enquanto na imagem anterior, o trabalho é meramente humana, neste caso, estamos na presença de máquinas de" fazer cubos".


2005. Produto final pronto a ser exportado.

João Costa

domingo, 21 de março de 2010

Arqueologia dos ofícios e profissões V e o Dia Mundial da Água

Fontes e Lavadouros públicos

A árdua tarefa da lavagem da roupa ter-se-á iniciado no riachos, rios e ribeiros, passando posteriormente para as presas e tanques, até entrar dentro de casa, com as máquinas de lavar.
A velocidade do quotidiano e o próprio estado de riachos e ribeiros não permite esta actividade solitária e solidária das mulheres que se juntavam nos lavadouros públicos para lavar a roupa e actualizar as conversas. Era uma espécie de barbearia, na dimensão feminina, ao ar livre. Talvez mais saudável, porque as palavras voavam com a aragem e corriam nas águas. E como a infância é a nossa cronista da história, ainda estão presentes os cheiros da brancura a corar na rampa da Laranjeira, misturados com gelatina de sabão, tons amarelos e brancos das pequenas saquetas de lixívia, quais barquitos pela corrente do ribeiro, e tocas de grilos que deixavam de cantar quando alguém se aproximava. As brincadeiras da criançada eram interrompidas para, armada de regador em punho, borrifar a roupa já meia tesa pelo sol.
E eram vários os lavadouros públicos espalhados pela freguesia, quase sempre geminados com um fontenário.
Destes locais templo-da-purificação, destaca-se o ribeiro do Ordonho, também palco da lavagem de muita tripa suina por alturas da friagem da matança do porco, o lavadouro do memorial, situado próximo do lugar da Quebrada, o lavadouro do lugar da Saibreira, dois lavadouros em Vila Cete, o lavadouro do lugar do Monte, o do Cano, o da Lameira, o dos Conventos, o do Cadouço, o de Louriz, o de Mondim, o de Paredes e o do Tapado. A par destes destes espaços, a freguesia apresentava muitos tanques particulares, por vezes, partilhados pela vizinhança, vestígio de um processo comunitário, a par de outros que já se extinguiram praticamente, como a troca do "crescente" para a cozedura do pão, a troca de carne do porco, por altura da matança e outro mais religioso, como a passagem da "Sagrada Família". " Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", como também é preciso mudar a nossa atitude perante a água.

Quando não existia água por perto, era necessário explorá-la, através da construção de poços.


Tanque e lavadouro particular, ainda com dois processos de extracção de água - bomba mecânica e motor eléctrico. Lugar da Serrinha - 2007.



Bomba manual e tanque de granito. Memorial - 2006.


Bomba manual, agora objecto de museu. Lugar do Memorial.


Outrora esta bomba estava acompanhada de um tanque de granito, reservatório de lampreias. Lugar do Memorial.


Fonte e tanque adornados por estátuas de ganito. Este espaço da Quinta de Leiria está actualmente deteriorado, tendo as estátuas desaparecido.

Fonte de Baixo, no lugar de Vila Cete. Estrutura em granito com fonte, lavadouro e o pormenor do vaso. ( 2003)


Fonte de Cima, no mesmo lugar, com fonte, lavadouro e presa. ( 2003)

Fonte do Monte. Estrutura em granito, com depósito, tanque e lavadouro. (2003)

Tanque e lavadouro em betão no lugar de Louriz. (2003)

Fontanário do Memorial. A água desta estrutura segue para um lavadouro público na proximidade.

Lugar do Tapado. Mina e tanque/ lavadouro. (2003)


Lugar de Mondim. Fontanário, tanque, lavadouro e presa. ( 2003)

Bibliografia
COSTA, João Pinto Vieira da, Alpendorada e Matos - Península de História, JFAM, 2005
João Costa

quinta-feira, 11 de março de 2010

Arqueologia das profissões e ofícios IV

O carvoeiro

Existira, em tempos, no lugar da Serrinha um local de fabrico, venda e armazenamento de carvão. Esta actividade centrava-se, tal como outras, no seio do grupo familiar. Neste caso, este ofício era exercido por uma família de apelido "Militar". A presente fotografia foi obtida no lugar da Linha Recta, na direcção da encosta para o rio Tâmega, a cerca de 500 metros da estrada nacional, na década de noventa. Retrata um "forno" para, de uma forma muito lenta, produzir carvão. Nas décadas de 60 e 70 era habitual, em Alpendorada, ver estas construções nas zonas de floresta.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Arqueologia das profissões e ofícios III

O "barraco" e a forja
do Memorial

Foto do autor no início da década de oitenta, no local recém-desmantelado, da oficina de reparação de bicicletas, onde trabalhava o senhor Alexandre "Barracas". No mesmo local, distanciado vários metros, funcionava uma forja. É interessante que estas duas oficinas tinham em comum o ferro das bicicletas e o ferro forjado das grades e portões e essencialmente o dos utensílios dos pedreiros. Há muitos anos que esse espaço foi ocupado por construções habitacionais. Esta é a única foto do meu arquivo que documenta levemente esse espaço. Claro que a memória armazena muitas imagens e também o cheiro dos óleos, ferrugem e aquele cheiro característico da forja.

domingo, 7 de março de 2010

Arqueologia das profissões e ofícios II

O Fogueteiro


A arte de lançar o fogo nas festividades religiosas era pertença de uma família. O mestre Zé Cego, apelido pelo qual era conhecido, também era um músico popular. A par dos acordes mais estridentes da pólvora a estalar no céu e por vezes no chão, ensinara uns e sensibilizara outros para a prática de um instrumento musical. A minha homenagem a esta e a todas as simples figuras que marcaram a cultural popular de Alpendorada.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Arqueologia dos ofícios e profissões I

O contínuo avanço da ciência e da tecnologia possibilita aspectos benéficos à sociedade, mas arrasta consigo um conjunto de ofícios e profissões que passam rapidamente para o domínio da arqueologia. Os grandes centros comerciais e hipermercados, o progresso económico (?), o desparecimento da agricultura tradicional de subsistência são alguns factores que contribuem para esse desaparecimento. Restarão algumas actividades artesanais que poderão alimentar-se de um turismo insuficientemente explorado.
Tendo como ponto de estudo Alpendorada, já raramente se houve falar e muito menos ver actuar o capador que preparava o porquito para a engorda durante o ano, culminando na matança pelo meses mais frios do Inverno. Nesta situação, actuava o matador ( ainda me lembro do senhor "Clidres" que anualmente vinha fazer essa tarefa, sendo, geralmente pago, com uma febras do porco, no dia da "desmancha").

Matança do Porco, em Várzea do Douro ( foto gentilmente disponibilizada por Arlindo Carneiro - R. Janeiro)

O vedor era essencial para a marcação do poço, uma vez que o abastecimento de água se fazia e ainda se faz através de um poço. Actualmente as perfuradoras conseguem abrir um furo e encontrar água a grande profundidade, substituindo, assim o trabalho do vedor e o do mineiro, tantas vezes perigoso e fatal.

Abertura de um poço. Momento em que "nasce" a água.

O transporte e arrumo da água fazia-se, em tempos, em vasilhame de folha de flandres e zinco, substituída depois pelo plástico. Isto fez com que o latoeiro/ funileiro também deixasse de ter procura. Se passarmos da água para o vinho, as constantes reduções na produção de vinho por pequenos proprietários e os novos materiais utilizados no armanezamento dos vinhos terminaram, há muitos anos, com a presença sazonal do tanoeiro no lugar do Memorial.
Maçarico utilizado pelo Sr. Rodrigo Pinto na arte de latoaria.


Memorial- Casa onde o tanoeiro sazonal organizava a sua oficina e estaleiro de pipos.

As padeiras que, de canatra à cabeça, percorriam a freguesia para distribuir o pão fresco -os "moletes" escondidos debaixo de um pano branco - também já desapareceram, assim como as sardinheiras. Ainda restam, felizmente, as vendedeiras de tremoços e castanhas, no lugar do Memorial, a lembrar um recepcionista da terra. Os moleiros também já são raros ou mesmo inexistentes. Para as bandas dos rios Tâmega e Douro, foram-se os barqueiros. E destas terras fundas onde cresce o vime, já não lembra o cesteiro.


Sr António, outrora barqueiro em Fontelas.

Sr Álvaro "Cesteiro" ( falecido há décadas)
(Foto digitalizada por F. Costa e gentilmente disponibilizada por M. V. Antunes)


O merceiro e o taberneiro vão desparecendo com os cafés e outros mercados. Até os alfaiates (recordo dois) foram tapados por tanto pronto-a-vestir. Nesta área dos têxtil, somente na Serrinha, ainda laborava um tear manual, por duas irmãs tecedeiras, a pensar desistir do ofício por incapacidade e a quem tive o prazer de fotografar.

Tecedeira da Serrinha.(2007)

A senhora Maria com uma passadeira confeccionada no tear da Serrinha. (2007)

O comprador e vendedor ambulante de ovos, galinhas e coelhos, com uma bicicleta carragada com uma giga e a franganada a cacarejar só me baila na memória, quando, um certo dia, espalhou a carga de ovos na estrada, e as mulheres da vizinhança vieram aproveitar as gemadas, ali para os lados do Ribeiro. Qual vírus qual quê! O que não mata engorda!


O senhor Torcato.
(Digitalização de Fernando Costa, segundo foto disponibilizada por M.V. Antunes)

E as cozinheiras que iam de casa em casa para fazer as bodas? Deve ser muito raro. Perde-se um costume em que o verde e a sopa seca integraram uma ementa ancestral.

As especialistas das ementas tradicionais servidas nas bodas "à moda Antiga".

Para o Caminho Velho, encaminhavam-se as loiças partidas como malgas, pratos e travessas para que se lhes desse um jeito, com uns agrafos e uma certa cola biológica. Os guarda-chuvas também não escapavam à mestra de consertos - a Mouca, como lhe chamavam.


A "Mouca" a consertar um prato.

(Digitalização de Fernando Costa, segundo foto disponibilizada por M. V. Antunes)

domingo, 27 de julho de 2008

Barbeiro

Pinto Barbeiro ao centro da fotografia,
de mitra na cabeça.
( Foto: Arlindo Carneiro - Rio de Janeiro )

O barbeiro era um respeito na terra. O pescoço tinha de ficar direitinho para que a máquina não arrancasse uns cabelos e fizesse arrepiar os outros. Lá da minha infância, recordo uma unha enorme no dedo mindinho que parecia equilibrar a tesoura. Com a outra mão, ia ajeitando a cabeça da vítima, direita que nem um fuso, e ainda por cima de babete.
O barbeiro da minha infância era o Pinto Viana ou Pinto Barbeiro e aparava-nos o caco para os lados do Caminho Velho.

sábado, 26 de julho de 2008

Mel tradicional

Doces memórias
Extracção do mel de cortiços e colmeias - Memorial ( Foto: 2000)

Expulsão das abelhas das alsas das colmeias com um "borrifador" de fumo e uma escova.

É necessário que o apicultor esteja totalmente protegido contra os ataques das abelhas.

Depois de extraídas as alsas da colmeia com a ausência forçada das abelhas, retira-se, com uma faca, a película de cera que tapa os favos de mel.
Extraída a cera, colocam-se as alsas numa centrifugadora para que mel seja libertado.

Finalmente, abre-se a torneira da "máquina" centrifugadora e escorre a doçura do trabalho das abelhas e do homem.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

A Botica do Tojal

A Casa da Botica é um edifício classificado como Imóvel de Interesse Municipal, em 27 de Fevereiro de 2004, e pertence a António Vieira Coelho de Sousa. Esta classificação deve-se à sua importância histórica e respeito pela traça original. Alberto Pimentel em "O Testamento de Sangue" descreve esta casa que acolhera uma botica e destaca particularmente a figura do boticário:
"o boticário do Tojal era como todos os boticários, ou ainda melhor talvez, todos os boticários estavam dignamente representados no boticário do Tojal. A farmácia não era grande, aceada, bonita. Os caixilhos da porta não tinham vidros, e na janela paralela à porta os vidros eram substituidos por folhas de papel ",
"Entremos à botica to Tojal numa das últimas noites de Julho de 1843".

Alberto Pimentel, O Testamento de Sangue, 2ªed.,Livraria Figueirinhas, Porto, 1946, pp. 233-240

À volta do Pão

Um costume que se vai tornando cada vez mais raro é o fabrico do pão caseiro. Até há algumas décadas, era natural a circulação do "crescente" ou fermento entre os vizinhos para a cozedura do pão. Este era composto por farinha de milho e uma pequena percentagem de farinha de centeio. Como a foto demonstra, os bolos, recheados de pequenas tiras de carne de porco, antecipavam a cozedura das broas.

Momento da colocação das broas no forno: " Botar o pão".
Pá de" botar" o pão no forno.

Pá utilizada para retirar o borralho e o pão do forno.

Gamela - espaço onde se peneira e amassa a farinha. Depois de feitas as broas, ficam um tempo a levedar com a tampa fechada. Posteriormente vão ao forno.

Interior do moinho do Granjão.

Moinho do Granjão- Pormenor do "Inferno"(1990)

Moinho do Granjão (1990)

Moinho de Viana já desaparecido ( foto:1990)

Caixa do milho e rasa.

"A limpa"do milho com a tarara. Eira no Memorial.

Eira, palheiro e espigueiro no lugar de Santa Cristina (foto: 2004)

Espigas preparadas para a "malha" .

Campo de milho, Memorial.

Sachador.

Semeador.

Grade

Arado.