segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Património gastronómico – A lampreia

Nesta época da lampreia e do sável, recordo o tempo da minha infância, nos finais dos anos 60, e o meu avô, Rodrigo Pinto, único funileiro/ latoeiro da freguesia. No seu ofício, inventou, nessa época, uma forma de conservar a lampreia, criando uma embalagem de forma circular em zinco, com as medidas aproximadamente de 25 cm de diâmetro e 12 cm de altura. A parte superior apresentava uma pequena abertura circular de 6 cm de diâmetro, posteriormente tapada com soldadura.
As lampreias eram adquiridas aos pescadores que possuíam as pesqueiras e os alares muito perto do local, onde hoje se situa a barragem do Torrão, no Rio Tâmega. Um desses pescadores era o Sr. Reimão (também já falecido). Outro era o Sr. José Cunha morador no lugar de Carcavelos, que ainda hoje vende lampreias junto à barragem do Torrão, perto do ribeiro de Cardide e que possuía também uma pesqueira perto do local da barragem. As lampreias que hoje vende são provenientes da Figueira da Foz.
Existia um tanque junto à casa e local de trabalho do meu avô que servia de armazenamento e exposição das lampreias, todas elas vivas, à espera dos clientes que em pouco tempo todas as compravam, por cerca de 10 escudos cada.
Para a conserva eram seleccionadas as melhores que, depois de preparadas pela minha avó Maria, eram enlatadas e seladas com soldadura. Muitas destas conservas eram enviadas para o Brasil, por navio, principalmente para os familiares. e também para outros países tal como Angola.
O passatempo preferido de meu avô era a pesca. Levou-me muitas vezes com ele a pescar junto ao rio Douro nas pesqueiras existentes na altura que pertenciam ao Mosteiro de Alpendorada.
No Torrão existiam bastantes pescadores que se dedicavam à pesca da lampreia e grande parte das pesqueiras e alares situavam-se no Rio Tâmega, mais precisamente no lugar de Pensos. Houve um ano em que a lampreia foi em tão grande quantidade que, no dia de Páscoa, quase não chegavam a tempo do Compasso, apesar de terem estado a pescar desde manhã bem cedo. Nesse dia pescaram cerca de 400 lampreias.
A lampreia ou se gosta ou se odeia. Quanto a mim, não dispenso a minha parte.


Igreja e Convento de Alpendorada, com o rio Douro ao fundo, antes da construção das barragens que impediram o trânsito das lampreias.


Excerto dos Estados de Pendorada, ADB, de meados do século XVIII, que apresenta o número de lampreias e sáveis contabilizados pelo mosteiro, além de outros produtos. (Digitalização de microfilme por João Costa)


Foto do rio Douro, vista da quinta de Bom Jardim, com zonas das pesqueiras ao fundo.



Rio Tâmega, zona dos antigos moinhos submersa pela barragem. Foto de 1980.


Alicerces de um projecto de uma ponte Ferroviária sobre o Rio Tâmega situado na proximidade da quinta de Sobretâmega, 1980. Este projecto foi posteriormente executado no Marco de Canaveses.


Manuel V. Antunes, em 1980, a observar o local onde viria a ser construída a actual barragem do Tâmega.





Pescadores do sável e da lampreia, na freguesia do Torrão, no lugar da Conca. Um dos barcos era propriedade de José Rodrigues, natural do Torrão.


Ribeiro de Cardide.


José Cunha no seu negócio de venda e amanho das lampreias, junto ao ribeiro de Cardide.


Já amanhada, só falta ir para a panela e depois... recordar o sabor de séculos!

Reportagem de Fernando Costa

2 comentários:

vasdoal disse...

Fernando, obrigado por mais esta excelente reportagem, simultaneamente testemunho da nossa cultura e documento histórico.
Foi um prazer recordar e saborear as águas do Douro e Tâmega, até então, ainda livres.

Observador disse...

Mais uma completa e didáctica reportagem de Fernando Costa, sobre as terras do mira-douro e do mira-tâmega.
São "artistas" como este,que revelam ter a arte de mostrar aos Marcoenses e aos forasteiros,que o Baixo Concelho - Alpendurada e Matos,Torrão,Várzea do Douro,S.Lourenço do Douro - tem muito para oferecer para além da arte da pedra.Parabéns,Fernando.